Escola Paulista de Medicina
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Tempos de Coronavírus: vulnerabilidade e resposta social em territórios metropolitanos de São Paulo e Santos

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Um grupo de 108 pesquisadores, entre professores e estudantes de graduação da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), jovens estudantes do ensino médio e moradores de 16 territórios metropolitanos dos municípios de São Paulo e de Santos, desenvolveu a pesquisa Desigualdades e vulnerabilidades na epidemia de Covid-19: monitoramento, análise e recomendações, de maio a dezembro de 2020. O artigo Vulnerabilidade e resposta social à pandemia de Covid-19 em territórios metropolitanos de São Paulo e da Baixada Santista (SP, Brasil), escrito a partir deste estudo e publicado na Interface – Comunicação, Saúde e Educação, tem o objetivo de analisar a vulnerabilidade e os modos de enfrentamento à pandemia de Covid-19.

Esperamos contribuir para as populações participantes e para outros territórios metropolitanos, no tempo presente e no futuro, ao favorecer a compreensão sobre as vulnerabilidades a epidemias e ensejar possibilidades de transformação da realidade, por meio do compartilhamento e da análise de experiências de resposta social.

Participaram os territórios de: Heliópolis, Vila São José, Jardim Helian, Vila Miguel Ignácio Curi, Vila da Paz, Vila Mariana e Luz (São Paulo); Portal D’Oeste, Quitaúna, Bandeira e Morro do Socó (Osasco); Residencial Esplanada e Núcleo Mabel Assis (Uneafro), ambos no bairro dos Pimentas (Guarulhos); Eldorado (Diadema); Alemoa e Saboó (Santos).

As condições de vida são diferentes entre os territórios; como rimam os Racionais MC’s: “o mundo é diferente da ponte pra cá.” 14 áreas são classificadas como aglomerados subnormais, as Comunidades, na expressão dos moradores. A Vila Mariana, bairro paulistano reconhecido como de classe média, também abriga comunidades vulneráveis. A denominação “Luz” foi preferida pelos pesquisadores do “fluxo”, à de “Cracolândia”.

Nas Comunidades, moradias precárias, trabalho informal, desemprego e transporte deficitário caracterizam as condições de vida, agravadas nos tempos de Coronavírus. Houve redução da renda para 87,3% das 450 pessoas que citaram alteração. Já a fome, aumentou: 79% dos pesquisados referiu insegurança alimentar. A concentração de pessoas no mesmo espaço dificultou o isolamento social nos casos de infecção por Covid-19. O estudo mostrou divisão mais desigual do trabalho na pandemia, com sobrecarga das mulheres no cuidado com a família e no trabalho fora do lar.

Na Vila Mariana (Classe Média), a maioria dos entrevistados pôde aderir ao teletrabalho, mas muitos experimentaram redução de renda ou desemprego. Foram frequentes os relatos de dificuldade de convivência familiar e solidão.

A Luz é um território “transitório”. Há quem está no “fluxo”, mas também outros que transitam por ali. Na quarentena, ocorreu limitação da possibilidade de “manguear” e fazer “corres” (na linguagem das ruas, pedir e fazer trabalhos informais, respectivamente).

O quadro da vulnerabilidade e dos direitos humanos foi tomado como referencial teórico3 pela contribuição para a compreensão e transformação da realidade social. A vulnerabilidade diz respeito às chances para adoecer ou para se proteger e apresenta três componentes interrelacionados, dos quais destacamos alguns aspectos para a infecção e a doença pelo Coronavírus:

a vulnerabilidade individual – em todos os territórios, os participantes manifestaram desconfiança nas fontes de informação governamentais, uma atitude protetiva frente à propaganda contra a saúde pública e às fake news sistemáticas e institucionais. As possibilidades de prevenção se relacionam com poder acessar e aplicar as informações, o que depende do sentido para a vida de cada pessoa;
a vulnerabilidade social – nas Comunidades, as relações de trabalho são mais precárias, mas há maior apoio entre os vizinhos, em comparação com a solidão da Classe Média. Na Luz, a violência nas relações interpessoais e institucionais, incluindo violação dos direitos humanos pelas forças públicas, impacta a proteção ao Coronavírus e o acesso a auxílios;
a vulnerabilidade programática – o acesso a serviços, insumos de proteção, e internação (quando necessária) foi muito menor na Vila Mariana (Classe Média), e maior nas Comunidades e, principalmente, na Luz.
Trabalhar com a vulnerabilidade (AYRES, et al.) demanda compromisso universal e propostas específicas para cada população. Os direitos humanos são um marco fundamental, contribuindo para a construção da resposta social.

As necessidades urgentes, amplificadas na pandemia, demandaram organizações imediatas de redes de apoio. Foi relevante a participação de movimentos sociais organizados e lideranças comunitárias, com protagonismo feminino, principalmente de mulheres negras. As redes tiveram como foco a garantia da sobrevivência e o acesso aos direitos. “Tudo que nós tem é nós,” afirmavam os participantes, conforme Emicida dá a letra.

Para a nossa pesquisa, marcada pelo compromisso social, foi importante o engajamento dos movimentos sociais de cada território. O encontro das redes de solidariedade possibilitou seu (re)conhecimento e a potencialização de ações de transformação, além de momentos de reflexão, mediados por ciência e arte, contribuindo para a análise.

Para enfrentar os desafios da pandemia e das vulnerabilidades, foram exemplos as estratégias de: formulação de políticas públicas dirigidas ao poder público; elaboração de vídeos, compondo a série Pandemia das Desigualdades, disponíveis no Canal do YouTube da Unifesp; e a criação coletiva de produtos informativos e educativos para distribuição e compartilhamento nos territórios.

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